Cremilde De La Rosa Raposo Colaço Barreiros

 

Introdução

Lisboetas, turistas e pendulares calcam apressadamente ondas do Mar Largo, caravelas, caranguejos, golfinhos, sereias, estrelas-do-mar, rosetas, lagartos fantásticos, florões e tapetes dos mais variegados formatos; obras dos nossos calceteiros-artistas quais poetas que inundaram com os seus mares de pedra as praças e artérias principais da nossa cidade com a sua dura poesia.

Nem sempre os alfacinhas reagiram assim. Quando começaram os primeiros trabalhos de calçada portuguesa juntavam-se magotes de povo que se surpreendiam com esta nova arte esculptórica. Com o passar dos anos, fez escorregar esta admiração para o esquecimento e os transeuntes pelas calçadas... a pedra desgasta-se ao longo dos anos com o polimento diário feito por milhares de botas cardadas ou não, saltos aguçados que vão picando a pedra, carrinhos nascidos de variadíssimas invenções; sim, porque o Lisboeta orgulha-se de outro tipo de arte citadina: o desenrasca – palavra que foge ao purismo da língua mas de grande uso diário...

O velho provérbio «santos de casa não fazem milagres» poder-se-à também aplicar à divulgação da arte existente na calçada portuguesa; em 22 de Setembro de 1945 a revista Século Ilustrado publica um artigo de Judith Maggioly intitulado «Repare onde põe os seus pés» aconselhando «…baixe um pouco os olhos e repare que está pisando estrelas, peixes, flores, liras, pássaros…»

Após este primeiro convite público muitos outros jornalistas e fotógrafos nacionais e estrangeiros se surpreenderam com a nossa calçada e desde essa época revistas e jornais das mais variadas partes do mundo escrevem, fotografam e encantam-se com esta arte tipicamente lisboeta.

A arte-do-calcário-e-basalto começa a espraiar-se por um mar de países devido, em parte aos seus tons sóbrios que se integram facilmente no ambiente envolvente.

Painéis calcetados tornam-se obras de arte e pertença desses povos que os tratam com carinho, preservando-os com cuidados que nada têm a ver com o atirar pedregulhos para o lado ‘porque estão a estorvar a passagem...’, sendo-lhes indiferente que pedras facetadas e partidas manualmente pertençam a um painel.

Variados episódios poderiam ser relatados; irei referir apenas um por ter acontecido há pouco tempo e ainda não ter visto o seu registo: um português ao pisar um painel de calçada à portuguesa feito em homenagem a John Lennon no Strawberry Fields do Central Park of New York, foi surpreendido por um grupo de norte-americanos que lhe explicava que era uma obra de arte pintada a negro e como tal não se poderia pisar. O polícia presente declarou que não estava previsto na lei qualquer penalização, mas efectivamente ninguém o fazia. O nosso português lá repôs a verdade dos factos...

 Poderemos sintetizar desta maneira a arte do calcetamento:

·        Nasce da abstracção da cor recorrendo apenas ao contraste;

·        Sobrepõe o rigor do ornato ao sugestivo do desenho;

·        Tende para a vasta dimensão em vez de se cingir ao motivo restrito.

·        Possui um sentido estético e utilitário que nunca satura os olhos porque surgem sempre inéditos conforme o ângulo de que se observem.

·        Morre tardiamente: a sua morte prematura deve-se somente à incúria de quem deveria zelar pelo seu Património.

À arte da calçada portuguesa poder-se-ia aplicar o libelo que Alexandre Herculano usou para os monumentos:

 «Erguer-se-ão rusmas de nabos, de couves e de alfaces no lugar do monumento. E que é, com efeito, neste século egoísta, indiferente positivo, um monumento a par de uma jiga de hortaliças, que é uma recordação de D. Fernando e de D. João I a par de um bem criado repolho.»

in Alexandre Herculano, «Os Monumentos II»

 

 

 

 

 

Poesia Calcada

 

Origem das palavras via, caminho, carreiro, vereda, estrada, quelha, azinhaga, avenida.

«Andei por vias ínvias ou sem gente», escrevia José Régio. A via é o caminho romano por onde toda a gente continua a ser obrigada a andar. Via que nos volta a aparecer na vianda que é aquilo que se come pelo caminho, e que em português se transformou em sinónimo de carne por influência francesa.

Os caminhos que veio directamente do latim camminu são muitos e muito diversos. O latim bárbaro transformou a palavra em carraria, a carreira, o carreiro palavra usada até mesmo para o das formigas!

As velhas estradas romanas de que ainda se encontram largos troços em Portugal são as veredas, vereda ou breiras a significarem caminho velho, e que talvez queira dizer que existiam já mesmo antes dos romanos e possam vir dos celtas ou desde o Paleolítico – in Roby d’ Amorim Elucidário de conhecimentos quase inúteis.

A Idade Média passou a chamar-lhes estrata, carraria e carrada no português, provavelmente a partir da acequia árabe que viria a transformar-se em quelha ainda hoje utilizada em relação ao arco-íris «Arco da velha / Põe-te na quelha» e azinhaga.

Avenida é já bem mais moderno. A palavra já existia em latim: adenuta que significa por onde se chega a um lugar.

A avenida transformar-se-ia, no seu significado inicial, rua direita. Direita a querer significar directa, pois acontece que todas as ruas direitas deste país são normalmente muito tortas, frase que a Maria Tonta – conto tradicional infantil – se orgulha muito em repetir e aplicar à sua aldeia.

Fialho d’ Almeida foca a avenida como uma novidade lisboeta sendo esta interessante do ponto de vista histórico.

«É do adro da Graça que Lisboa deve ser mirada numa noite sem lua, quando já os rumores dos bairros altos se teem apaziguado, deixando o ouvido então sugar lucidamente o lohu-bohu que se evola da Baixa, em trepidações ondulatórias, desde o Terreiro do Paço até ao Rocio, e subindo daí para o regueirão do antigo Valverde, cujo leito alargado deu a avenida, até ao deserto negro de valpereiro e Santa Marta.» - in De Noite

 

 

Caminhando na História dos Empedrados

 

Falar na grandeza de Lisboa Renascentista é falar dos Descobrimentos Portugueses e do Rei D. Manuel I O Venturoso (rei de Portugal de 25 de Outubro de 1495 a 13 de Dezembro de 1551).

Lisboa, cidade, vida e coração deste Reino, segundo as palavras de Fernão Lopes, via deslumbrada a chegada das escunas que vinham do Oriente e que aportavam ao Cais da Ribeira.

Gil Vicente (1465? - 1537?) corrobora com esta descrição: «Lisboa era uma cidade movimentada e colorida, onde a riqueza se ostentava, vendo-se o Tejo coalhado de navios de diversas nações, que vinham trazer e levar os produtos da Europa e do Oriente».

(…) «O rei quando saía do paço, fazia-se acompanhar por um cortejo asiático, cuja frente vinha a ganga, rinoceronte da África, seguido de cinco elefantes recamados de xairéis de brocado e do cavalo persa com o caçador e a onça; em seguida apareciam o rei e a corte, a cavalo, seguidos pelas bandas de atabales e clarins.»

Tanto fausto e grandeza na cidade de Lisboa merecia um piso imponente que proporcionasse ligações terrestres mais cómodas e rápidas, dado que Lisboa passou a ser o eixo comercial da Europa, destronando a velha Veneza. Tentando suprir esta lacuna, o soberano lançou determinação régia e da natureza do bem comum, um imposto que deveria ser cobrado pelo Senado de Lisboa que começou a cobrar e administrar uma renda pelos carros que carroceiam na cidade, aplicando-a exclusivamente nas calçadas que os carros desconjuntam e destroem. D. Manuel I, pela carta régia de 20 de Agosto de 1498, determinou que continuassem as obras das calçadas, pagando a cidade a mão-de-obra e dando aos proprietários de casas e a donos de carros as achegas (materiais e transportes); a nobreza e o clero não foram isentos e levantaram grande oposição a contribuir para esse serviço municipal, embora fossem os fidalgos quem mais lucravam com o arranjo das ruas. Em carta régia de 8 de Maio de 1500, D. Manuel aprova a despesa orçada para o calcetamento da Rua Nova Grande dos Mercadores, devendo empregar-se nessa obra pedra do Porto porque a outra dana-se na maneira que vedes, sendo os trabalhos da calçada pagos a cinquenta reis por braço.

Burgueses endinheirados, clero e nobres e familiares do Santo Ofício apresentaram variadíssimas razões para não pagarem, argumentando que eram servidores do Rei ou de Deus; perdeu o ortelão d’el rei que nem por morar nos Paços da Ribeira deixou de pagar o escota.

D. Manuel discordou de tantas e hábeis desculpas e por alvará de 26 de Agosto de 1515 manda a Câmara de Lisboa proceder contra as pessoas que fugissem de contribuir para o ladrilho da Rua Nova dos Mercadores assim como outras vias afluentes ao Paço da Ribeira que trazia em construção.

A denominação de Rua Nova dos Mercadores foi atribuída em homenagem aos mercadores que eram em grande número e traziam prestígio à cidade (argumento que D. Manuel I utilizou para os pressionar a contribuir monetariamente para a Rua).

A sua denominação anterior era a de Rua Nova dos Ferros, terminologia que Gil Vicente ainda utilizou: «A Rua Nova dos Ferros era a principal artéria da sua vida comercial e mundana exterior. Contava com uma vintena de lojas de panos, umas trinta de seda e outras fazendas, treze de mercearias e especiarias; nove boticas, onze livreiros e cerca de cinquenta singueiros e ourives.»

As polémicas sobre os dinheiros públicos para os arruamentos estendem-se pelas ruas poeirentas até aos famigerados anos de 1531 e 1551 marcados por terramotos. Nessa época surge um contingente de mão-de-obra barata pronta a aceitar qualquer tipo de trabalho; contudo os impedimentos continuam: a matéria-prima encareceu muito porque a pedra já não vinha das antigas pedreiras locais.

O viajante italiano setecentista Giuseppe Gorani percorrendo Lisboa em construção (1755) referiu-se a esta cidade em que as ruas eram em terra batida cheias de covas, as mesmas que em momentos de crise serviram para enterramentos defronte das casas dos defuntos.

É depois do terramoto de 1755 que a cidade se norteia no campo dos arruamentos e Gorani que revisitou Lisboa (entre 1765 e 1767) foca a pavimentação que estava a ser construída: era muito boa e a cidade obtinha grandes vantagens com a destruição das antigas ruelas e casas insalubres. Referiu-se à Rua Augusta como tendo bons passeios largos e planos (dever-se-ia referir às enchelharias grossas citadas no plano de reconstrução) onde só as faixas para veículos e muares eram calçadas de pedra miúda.

O calcetamento das ruas tornava-se cada vez mais permanente; desde os finais do séc. XVII que as ruas da cidade registam uma variedade cada vez maior de carros e modelos de tracção acentuando-se as funções económicas e sociais dos transportes.

O coche utilizado desde o Renascimento é, a partir do séc. XVII, que se torna um dos símbolos do poder e luxo ostentado nas ruas. As carruagens eram tão largas que muitos nobres tiveram de alargar as estradas dos palácios… Dick Stoop fixou esta grandiosidade numa gravura de 1662, que se encontra actualmente no Museu da Cidade.

Esta opulência atinge o seu auge no início do séc. XVIII com D. João V (rei em 01/01/1707) que traz para Portugal os estilos de governados de Luís XIV e Luís XV.

Luís XIV influencia-o na centralização do Poder «O Estado sou Eu» e Luís XV na estética e robustez na arquitectura monumental; o grande exemplo português é o Aqueduto das Águas Livres que envolveu engenheiros de várias nacionalidades, a sua construção avançou e resistiu sem fissuras ao Terramoto de 1755 apesar da arcaria passar por uma falha sísmica…

O fausto das deslocações régias só tiveram paralelo com as de D. Manuel I. Com D. João V, por encomenda ou por oferta, vários coches magníficos chegam a Lisboa.

  Luciano Freire faz a descrição do mais célebre destes veículos conhecido por coche de D. João V, actualmente exposto no Museu dos Coches: « A talha dourada que o ornamenta tem como motivo decorativo principal, nos ângulos da caixa, figuras representando as quatro partes do mundo, suportando os escudos da fantasia amparados por meninos (…) No alçado dianteiro, a decoração em talha é constituída por armamentos, carrancas e cabeças de mulher, duas das quais simbolizam evidentemente a Abundância e a Agricultura…». Imagens dos signos zodiacais preenchem o alçado superior, e no alçado da frente surge-nos ainda um painel com a realeza coroada pela Fama. Mitologias poderosas, impregnadas de simbolismos renascentistas fazem da carruagem um centro de gravidade em movimento. O coche do rei está investido de uma ordem própria e transcendente.

D. José I, filho único de D. João V foi aclamado rei a 07 de Setembro de 1750; sendo este monarca como o seu pai, amigo das grandezas, gostava de ostentar poderio: o seu coche tinha como decoração na traseira a figura de Hércules dominando um leão…

A magnificiência das viaturas alcança uma ressonância única nos dias de festa da corte. Baretti, ao visitar o nosso país, teve oportunidade de assistir ao fausto das comitivas por ocasião das comemorações religiosas da Cidade. Na carta de 03 de Setembro de 1760 descreve-nos o cortejo que se inicia com dois coches cheios de pedrarias, seguidos de cinquenta criados a pé. Segue-se o coche de Sua Iminência O Cardeal Patriarca lateralmente escoltado por dois padres e mais dois coches. O desfile continuava com a carruagem do rei, a da rainha e das princesas reais, cada uma com a sua guarda pessoal a cavalo. Quatro coches transportavam Damas da Câmara da Rainha. Todos os carros eram puxados por seis cavalos enfeitados com faixas brancas e pretas.

Esta opulência é abruptamente interrompida pelo Decreto-lei de 1761 que decreta que só personalidades equiparadas às primeiras dignidades da Igreja, ou embaixadores de potências estrangeiras, se podiam deslocar em Lisboa ostentando tal luxo. Um decreto do Marquês de Pombal concedia-lhes o estatuto de excepção ao mesmo tempo que ordenava que «nenhuma pessoa de qualquer condição que seja possa andar na cidade de Lisboa, e dentro da distância de huma legoa della, em carruagem de mais de duas bestas, sob pena de perdimento da carruagem, e bestas, que nella forem».

  A consequência mais imediata desta política é a reconversão nos meios de transporte dos grandes fidalgos que trocam o cerimonial pelo gracioso, o arcaico pelo novo, o transporte de cidade pelos funcionais equipamentos de campo.

No pólo oposto à requintada maneira de andar em Lisboa, encontra-se as viaturas grosseiras e pesadas, os carros de bois, empregues na lavoura e no transporte de mercadorias. Os carreteiros, importantes agentes económicos, são dos principais utilizadores de carros de bois que asseguram a circulação interna de mercadorias na zona de difícil acesso à navegação de cabotagem, ou ao transporte por rio. É por seu intermédio que Lisboa se articula economicamente com as zonas mais distantes: Estremadura, Ribatejo e Alentejo.

Lisboa também tem os seus carros de bois nas quintas que estão estendidas e dispersas dentro da malha urbana. Numa gravura L’Evêque dá-nos a ver o carro municipal de recolha de lixos embalado ao ritmo paciente das moscas e dos animais.

Lisboa na época pombalina é uma cidade suja de lixos acumulados e lamas no Inverno. Contudo começa a desenhar-se um novo conceito de saúde pública em que Ratton critica os esgotos da cidade e a falta de retretes nas casas; só a pia servia na cozinha e a água só jorrava dos potes comprada aos aguadeiros. Um edital de 1775 obriga os lisboetas a substituir os vidros que estivessem partidos nas janelas. Vinte anos antes Manuel Damaia tinha-os mandado colocar para impedir os cheiros das imundices despejadas para a rua onde o célebre pregão água vai ou lá vai água imperava.

Novamente os estrangeiros com os olhos fixos em Lisboa criticam a Cidade e um deles chega a queixar-se que a lama era tanta que nem nas grandes vias o trânsito podia circular; o pior eram os cães em bandos que corriam pela cidade servindo-se nos monturos.

A obra de reconstrução de Lisboa prosseguia muito lentamente, a Baixa pombalina mal estava delineada, não obstante no Terreiro do Paço ter sido inaugurada a estátua equestre de D. José I (06/06/1775) da autoria do escultor Machado de Castro.

Quase um século se passou até que a calçada dita portuguesa começasse a ser executada junto ao Castelo de S. Jorge (caçadores 5) aquando Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado era Governador de Armas do Castelo de S. Jorge (de 25/11/1840 a 30/05/1846) aproveitando os presos como mão-de-obra barata.

Segundo o Engenheiro Miguel Pais fez-se romaria ao Castelo de S. Jorge para ver a primeira grande superfície. Júlio Castilho na sua obra Ribeira de Lisboa citando ainda Miguel Pais alude ao desenho da Praça dos Remolares (hoje Duque da Terceira) começado em 1850 como tão belo e elegante que se tornou notável a ponto de ser reproduzido em grande número de livros e jornais estrangeiros da especialidade.

Muitos escritores se referem aos empedrados de Lisboa e ao Mar Largo do Rossio. Actualmente quase destruído foi carinhosamente descrito da seguinte maneira por Eça de Queirós na Relíquia quando Raposão chega da Terra Santa ante a Titi e aos convivas do Campo de Sant’Anna desfiava o seu fantasioso relato…

«Fazia as minhas devoções, depois ia-me encontrar com o alemão, o meu amigo, o lente, numa grande praça que dizem lá os de Alexandria que é muito melhor que o Rossio… maior e mais abrutada talvez seja. Mas não é esta lindeza do nosso Rossio, o ladrilhinho, as árvores, a estátua e o teatro. Enfim para meu gosto, e para um regalinho de Verão prefiro o Rossio… e lá o disse aos turcos!»

 

 

 

É de salientar que Raposão ainda não se refere ao lago e como tal reporta-se aproximadamente a 1875.

Fialho d’Almeida na sua visão mordaz da cidade descreve de uma forma curiosa o Rossio: «… entanto a vista salta-lhe por cima, e lá consegue (o transeunte) penetrar nessa caixa oblonga, sem tampa, e singularmente luminosa do Rocio.

Neste corpo de monstro, escamoso de placas, corcovas, pernas, anquilosas, há um sistema arterial desenhado a luzes de gás; por cujos grandes vasos carroçam movimento e vida; é um sistema nervoso para a repercussão das suas grandes misérias e das grandes dores.

O coração do primeiro é o quadrilátero chamejante do Rocio. O encéfalo do segundo parece ser a grande massa dos edifícios hospitalares. (…) Como um coração que expede para os diferentes pontos do corpo as hematias da vida, assim daquela praça o gás se ramifica, num escorpião de artérias luminosas, que descem e sobem, mergulham e afloram os tecidos profundos dos bairros, coleando e luzindo (…)

In De Noite

Esta longa citação faz-nos visualizar o Rossio dos séculos XX e início de XXI.

O Rossio continua com o coração da cidade palpitante onde manifestantes de vários partidos ou de crenças futebolísticas ainda se reúnem como aconteceu recentemente no Euro 2004, em que várias bandeiras de países e de clubes ficaram penduradas como troféus em árvores, estátuas ou mesmo no lago!

O Rossio de facto mudou muito pouco e se houve alteração foi para pior (volto a frisar a destruição do Mar Largo) porque as lamas que conspurcam os pés e a alma dos transeuntes, essas lá continuam! Vejamos a actualidade desta passagem de Fialho: «Faz frio. Já as primeiras lamas deixam sobre os asfaltos, esculturada em côncavo, a pègada febril do transeunte – grandes pègadas de burguês, ao lado das pequeninas covas dos tacões altos e aventureiros».

Fialho também aponta uma das feridas da zona: o barulho do trânsito que ainda hoje nos ensurdece com os novos claxons musicais dos automobilistas apressados: «Daquele Rocio claro e saltante brota de facto um ruído incessante em catadupas, que parece crescer, ter raivas, sobressaltos; e é feito do rodar dos trens, dos silvos dos tramways, dos pregões dos jornais, e das convulsivas vozes de centenas de bôca que peroram, palestram, dizem mal – ruído gerado ali mesmo, e propulsando ao longe, através a rosácea das ruas, todos quantos frémitos a população àquela hora da noite ainda pode conter a actividade.».

Fialho faz também uma descrição hiperbólica de um dos transportes mais barulhentos e mais gigantescos da cidade: o Omnibus citadino.

«Também se perde a memória duns ómnibus que havia formidandos, talhados em arca de Noé, medonhos de escaninhos, providos de dois andares ou três, escadarias em espira, e um convés donde e passageiro ia gozando todo o panorama da cidade. Esta imensa máquina, que era uma aplicação da nau Vasco da Gama ao trânsito das ruas, movia-se sôbre quatro pequeninas rodas, puxada por uns franzinos cavalos idealmente magros como Sara “ mirrando-se como ela na estranha nevrose frenética do génio.

Por cima dêles, em cadeirola de ferro, ia um cocheiro espendurado como um corvo à beira dessa mole oscilante, toucando-se dum oleado cónico, e envolto num double de paninho azul. Aquilo ia pelas ruas cascalhando ferragens, numa estrupida de cadeias que batiam, vidros soando rachado, siflos de chicotada, e imprecações de estrebaria. Para subir à plataforma, um trabalho!..

Antes de se aventurarem lá cima, muitas pessoas deixavam testamento. Mas daquela altura que majestosa perspectiva de casarias esparsas, o rio espanejando enseada num azul de lhamas scintilantes — a tôrre de Belém, o Castelo, a Serra de Palmela…Via-se tudo, norte a sul, oriente a ocidente, águas, ruas, arrabaldes! Moradores de quinto andar situado na passagem do monstro, já não caíam em descer as escadas ao prédio: quando o ómnibus vinha na vertical, passavam as pernas fóra da varanda, e ei-los no tejadilho do carro dando bons dias aos outros passageiros.»

In Lisboa Velha e Lisboa Nova

Conto de Filho d’Almeida

 

O trânsito vai continuando a rodar barulhento no empedrado sujo e abastardado desta cidade do séc. XXI. Os camiões TIR são tão grandes como o omnibus de Fialho e mais perigosos. A sua velocidade já não permite que saltem para o tejadilho…

As obras lisboetas de tapa-buracos que Fialho d’Almeida tão bem retratou em «As Farpas» ainda hoje são uma das conversas favoritas dos lisboetas: há sempre magotes de gente que acaloradamente tentam adivinhar para que serve mais aquele buraco que também chegaram ao Rossio…

O texto de Ribeiro Christino de 1923 sobre o Rossio mostra-nos bem a apetência que a Câmara de Lisboa ao longo dos tempos tem de transformar Lisboa em «obras de Santa Ingrácia», expressão utilizada por este autor em particular e ironicamente aplicada pela população alfacinha.

A expressão carinhosa de Eça sobre o nosso Rossiozinho – uma das melhores praças da Europa – deu lugar à seguinte descrição: « (…) agora foi transformado num terreiro empedrado e assas perigôso para o transeunte; em logar do vistôso arvorêdo e do graciôso vasto empedrado aos «ondeados» brancos e pretos, fez-se um calcetamento bravo de basalto, para a passagem em todos os sentidos dos mais diversos vehiculos, eléctricos, automoveis, trens, sid-cars, carroças, e tutti quanti possa atropelar o citadino, o qual tendo que seguir para o lado opôsto, ou tem de dar a volta completa á Praça de D. Pedro IV, ou fiando-se nos mesquinhos refugios habilitar-se a ir parar á Morgue.

Por partes foram poupadas para esses refugios, algumas tiras longitudinaes e transversaes e três circulos, um rodeiando o monumento do Imperador, e dois os lagos; no primeiro foi conservado o ondeado primitivo, decerto para amostra do que antes fôra, nos de mais o calcetamento é á «portugueza» com desenho largo, aliás executado com a pericia dos calceteiros lisbonenses.

Por ultimo aos passeios deu-se exagerada largura, decerto para que as manifestações da Brazileira» e da «Chave de Ouro» sejam desafogadas e imponentes; para os grandes postes das luzes eléctricas, rodearam-nos de pequenos circulos, o que somados com os maiores, dão aspecto de reclame de queijaria ao Rocio, e finalmente, a Companhia dos Carris tomou á sua conta o interior da praça, para fazer girar nela em todos os sentidos como em mais um barn-cars, os seus carros eléctricos próximo ao monumento, de maneira que, já o «Diario de Noticias», lembrava aqui alguns mezes atraz, humoristicamente, que D. Pedro IV passava a ser o fiscal do movimento, que perto lhe girava; de certo, porém, que se o Imperador podesse ter movimento, não deixaria de enviar as suas «saudações» aos transformadôres do Rocio.

Eis o Rocio do começo do ano de 1923!, mas, se era indispensavel alargar os passeios lateraes, única cousa aceitavel que se fez, porque não se limitaram a estreitar o pavimento central os tantos metros necessários, sem escangalhar a tão antiga, interessante e originalissima praça de Lisboa?»

Não, não iremos só focar aspectos negativos; foram importantes e saudosos os anos de 1950 a 1960 quando a Câmara Municipal de Lisboa convidava artistas plásticos como Abel Manta, Clara Smith e Maria Keil para desenharem motivos para a nossa calçada. Os estudos realizados pela pintora Maria Keil foram aplicados em torno das estátua de Camões e na cervejaria Trindade.

Ventura Terra projectou proporções de conjunto para o Saldanha e Avenida da República. Cassiano Branco projectou o passeio da Avenida da Liberdade junto ao Vitória Hotel, distinguindo-se também na plêiade o arquitecto Pardal Monteiro nos aspectos técnicos.

Falar actualmente do empedrado é quase como fazer uma laudatória à Calçada Lisboeta com um Requiem In Pace.

 

 

Legendas das figuras apresentadas:

 

Foto 1 - Sereia em calçada portuguesa no Lago de Camões, Lisboa. Fotografia de Cremilde Barreiros; http://www.flickr.com/photos/arketipus/1433846881/

Foto 2 – Detalhe de painel marítimo, Lagos. Fotografia de Ana Clara Barreiros;  http://www.flickr.com/photos/foziber/241038249/

Foto 3 - Calçada a Morrer; fotografia de Cremilde De La Rosa Barreiros, 2004; http://fotolog.net/foziber

Foto 4 - Painel no Jardim Botânico, Lisboa. Foto de Cremilde Barreiros; http://www.flickr.com/photos/arketipus/1433847207/

Foto 5 - «E mais quadradinhos de ontem (e uma estrela)» Fotografia de Luísa Cortesão, 2004; http://fotolog.net:8080/luisacortesao

Foto 6 – Jardim da Estrela, Lisboa. Foto de Cremilde Barreiros;  http://www.flickr.com/photos/arketipus/1434719496/

Foto 7 - Calçada no Chiado, Fotografia de Cremilde Barreiros; http://www.flickr.com/photos/arketipus/1434719188/

Foto 8 – Brinquedo artesanal português. Foto de Ana Clara Barreiros;  http://www.flickr.com/photos/foziber/209598480/

Foto 9 - Estátua de D. José no Terreiro do Paço, 1908

Foto 10 – Rossio em 1872.

Foto 10 - Passeio frente à Brasileira, no Chiado. Fotografia da revista nº 10 da Cais, 1996; www.cais.pt

Foto 11 - Reprodução de zincogravura da Editora Sá da Costa para o livro Clube das Três Aldeias de Maria Keil. Reprodução feita por Yhonathannah; guache sobre cartão.

 

 Fundo criado a partir de detalhe de fotografia de Cremilde Barreiros

Web design de Ana Clara Barreiros

 

 

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